As Crônicas de Lucas R. de Oliveira

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Os Perigos da Escola

Datado de 24 de Março de 2008

OS PERIGOS DA ESCOLA

- Francamente, isso é ridículo!
- Ridículo?! Meu filho anda se queixando de maus-tratos desde que a professora Dila ficou grávida e foi substituída pelo Sr. Azukay.
- Por que um professor maltrataria uma criança? Isto é ridículo!
- Sinceramente, não sei. Mas segunda-feira passada meu filho voltou para casa sem dentes e sem as unhas da mão!
- Ele pode ter se machucado no recreio.
- E quanto à marca de chicote nas costas dele?
- Nós permitimos a entrada de chicotes na escola.
- Como?!
- Estudos da Universidade de Ohio comprovam que liberar a entrada de crianças com chicote na escola aumenta o aprendizado em 0,02%.
- O raio que o parta com as estatísticas! Quero tirar meu filho dessa instituição capenga!
- Ok, então, se assim deseja...

1 hora e 27 minutos depois...

- Muito bem, a matrícula do seu filho foi cancelada com sucesso.
- Ótimo! Avisarei minhas amigas do Clube de Chá e Costura (CCC) a não pôr seus herdeiros nesta espelunca de quinta categoria!
- A senhora não faria isso!
- Faria sim!
- SENHOR AZUKAY! VENHA ATÉ MINHA SALA COM O ALICATE E O CHICOTE!
- Pode vir! Eu encaro ele com a mão amarrada nas costas!

Uma batalha sangrenta depois ...

- A gente aprende outras coisas além de crochê no Clube de Chá e Costura, ouviram?

Gelo

Datado de 7 de Março de 2008

GELO

- Tudo culpa sua.
- Minha?!
- É, sua! Se você não tivesse gritado 'Yeti' ao invés de 'Pé Grande' enquanto esquiávamos, a neve não teria desabado sobre nós, formando esta micro-caverna!
- Você sabe como sou patriota... Sinto meu dedinho do pé encolher quando ouço a palavra outdoor...
- Isso não vem ao caso. Como iremos sobreviver neste ambiente inóspito?
- Teremos que recorrer ao canibalismo. É a única opção.
- Nunca! Provavelmente os índios passikes, que viveram nesta região, enterraram um salmão há 50 anos atrás, a 20 metros de onde estamos pisando. Talvez se só comermos as barbatanas, teremos dois dias alimento...
- Cala a boca! É uma pista artificial! Quando o nosso tempo acabar, eles virão buscar os esquis alugados!
- Skis
- O que disse?
- Skis. Você disse 'esquis'.
- E daí?
- 'Esquis' é errado.
- Não é não, seu porco globalizado!
- Patriota verde-amarelo!
- Não vamos discutir! Teremos que passar um tempo fazendo alguma coisa. Não quero passar esse tempo brigando.
- Ok, então.
- Agora é perseguição!
- Mas o que foi que eu fiz?!
- Você disse 'ok'!
- E daí?!
- Você fez isso só pra me provocar! Às favas com a civilidade, honrarei meus antepassados canibais! Banzai!!! Digo, iáááááá!
- Nããããão!!!



Três dias depois, ele é resgatado por uma trupe de escoteiros. Só que o que sai daquela caverna é um homem ligeiramente gordo e um osso com a bandeira brasileira gravada neste. Ele alega ter o encontrado lá.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Cinema

Datado de 9 de Fevereiro de 2008

CINEMA

Marcelo ficou radiante quando Irene aceitou ir ao cinema com ele no final daquele dia. Simplesmente deslumbrado. Há anos que se conheciam como amigos, mas nunca haviam pensado em mais nada, além de seus disputadíssimos jogos de ping-pong e suas reuniões de chá esporádicas.
- Só tem um probleminha - disse Irene, ligeiramente preocupada - meu pai tem que ir junto.
- Claro, claro... - respondeu Marcelo distraído com o imenso leque de oportunidades que se abrira há um minuto.
Ficou então decidido que o pai e Irene, Seu José, iria levá-los ao cinema e assistiria a um filme. Que filme? O mesmo que eles, é claro.
- Você tem mesmo certeza, Seu José? - perguntou Marcelo apreensivo. (Qualquer chance de se atracar com Irene durante um momento de êxtase fora por água abaixo) - Vamos assistir a um romance... - acrescentou, sem notar a gafe que acabara de cometer.
- Tenho - respondeu Seu José, mais veemente do que nunca. Até perdero tom jovial que Marcelo achava que possuía quando o cumprimentou no carro.
Chegando na fila para comprar os ingressos, Seu José o avaliou de cima a baixo, demoradamente, reprovando-o com um olhar carregado de ódio. Pressupondo que ele demorara um bom tempo averiguando suas mãos e pés, ficou implícito que ele tinha horror a cutículas e cadarços desalinhados. Tudo isso enquanto Irene observava um anúncio de picolés silvestres.
Quando finalmente copraram seus benditos passes, entraram em outra fila - não elas nunca morrem - para comprar alimentos cinematográficos.
- Eu vou querer um Fanta - respondeu Irene ao pai, que acabara de perguntar que bebida acompanhria a pipoca.
- E eu vou querer uma Coca - repondeu Marcelo. Neste momento, o pai lhe laçou outro olhar fulminante. Onde já se viu, Coca acompanhar pipoca? Cortaria relações com aquele moleque para sempre! Nunca mais o olharia na cara! Se se encontrassem na rua, o lançaria outro olhar fulminante e lhe aplicaria uma joelhada na região da bacia.
As coisas não melhoraram a partir daquele momento. Seu José lançava olhares carregados de horríveis sentimentos: quando entregou seu ingresso para o ticketeiro , quando identificou a sala em que o filme estava sendo reproduzido, quando estava subindo as escadas e até quando se sentou entre os dois.
À medida que o filme progredia, Marcelo decaía. Seu José não parava de espiá-lo por trás de seu saco de pipocas.
Até que srgiu uma esperança: Seu José adormecera. O terreno estava livre! O urso dormia! A geléia estava fora do pote!
Quando Marcelo passou seus braços ao redor de Irene, sentiu uma dor excruciante na lateral de sua cabeça: Seu José lhe arrancara a orelha e agora corria a toda velocidade, com sua orelha na mão, bradando:
- Nenhum beberrão bebedor de Coca com cutículas tão horrendas namorará minha filha!
E saiu pela saída de emergência, brandindo a orelha como um troféu.

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